CIDADANIA NO FEMININO
No Brasil, a questão da
cidadania enfrenta a segregação na pobreza de um enorme contingente da
população. Somos uma das oito maiores economia do mundo e, ao mesmo tempo, um
dos quatro países do mundo com maior concentração de riqueza e desigualdade
social. Essa desigualdade atinge especialmente as mulheres, que são mais pobres
que os homens, ganham menores salários e assumem maiores responsabilidades. As
mulheres brasileiras, discriminadas e oprimidas, como na maior parte das
sociedades, constituem, entretanto, um dos segmentos que mais se destacam na
luta pela universalização dos direitos sociais, civis e políticos.
Nesse sentido é preciso
conhecer como o sistema familiar, a organização econômica, os sistemas jurídicos
e religiosos concebem o lugar que a mulher deve ocupar na sociedade.
O LUGAR DA MULHER NA
SOCIEDADE
Meu objetivo aqui é
apresentar uma série de dados e considerações que nos ajudem a entender as
condições em que as mulheres brasileiras exercem sua cidadania. Assim, é
preciso explicar a persistência de uma divisão sexual no trabalho que leva à
feminização de algumas ocupações e masculinização de outras. Que razões
justificariam as mulheres ganharem menos do que os homens quando ocupam função
semelhante? Também é preciso questionar o fato de que as mulheres continuam
sendo as maiores responsáveis pelos cuidados com as crianças, não obstante
terem se tornado também provedoras. E, ainda, por que as mulheres são minoria
em todas as instâncias do poder político?
A família tem uma
história
Apesar de sua aparente
universalidade, a família é uma instituição social que inexiste em algumas
sociedades e que variou muito ao longo do tempo e em distintos lugares. A
História do Brasil registra diversos tipos de relações de parentesco e de
“famílias”, a começar pelo uso e costumes dos primeiros habitantes do país e de
seus remanescentes atuais. Com a progressiva urbanização e industrialização do
país rompeu-se a antiga unidade entre a casa e o local de trabalho, presente na
agricultura familiar. A unidade produtiva familiar perdeu importância diante do
regime de trabalho fabril. O espaço da moradia familiar deixou de ser o local
de moradia, produção e geração de renda e consumo de bens, tornando-se apenas o
local de domicílio e consumo de bens, tornando-se uma espécie de protótipo
universal de 1950, é então o lugar do relacionamento doméstico e da tríade
pai-mãe-progenitora. E o trabalho doméstico passa a ser visto como uma
atividade privada, não sendo considerada ocupação econômica.
O desvalorizado
trabalho doméstico
Nestas circunstâncias,
modifica-se a divisão do trabalho familiar e “trabalho doméstico” torna-se
sinônimo de cuidar da casa e das pessoas. Passa a ser encarado como um
prolongamento biológico do sexo feminino, uma espécie de vocação natural.
Assim, a corrente de sucessivas desvantagens que a mulher encontrará na vida
profissional, quando impelida a apresentar-se no mercado de trabalho, tem
relação direta com a questão das atribuições domésticas. As representantes do
sexo feminino são iniciadas na vida prática pelo aprendizado das tarefas
domésticas, que consumirão parcela de sua vitalidade e de seu talento. Esse
aprendizado inclui, por sua vez, habilitação manual e intelectual, e o
favorecimento de características psicológicas que tornem mais aptas de suas
”tarefas”. A mulher é então educada para “maternar”, cuidar dos outros.
Durante muitas décadas,
as mulheres que trabalhavam fora de casa eram suspeitas de não serem “honestas”,
vale dizer, castas e recatadas. Quando as mulheres de classe média quiseram
trabalhar tiveram de ouvir que “estavam tirando o trabalho de chefes de
família”. Outro fato que é relevante é a ideologia de que o trabalho remunerado
da mulher é sempre um “complemento” ao do marido, crença que muitas mulheres
ainda hoje internalizam, justifica os diferenciais de salário e a manutenção da
segregação ocupacional.
Educadas para o lar
A presença de meninas
nos estabelecimentos escolares só foi permitida por lei no Brasil a partir de
1827. O acesso a universidade foi liberado em 1879, mas poucas tinham
coragem de enfrentar os preconceitos
então existentes com relação às mulheres com cursos superior.
A referência constante
à vida familiar impregnava, pois, todas as atribuições e alternativas
ocupacionais que se colocavam para as mulheres. Na edição comemorativa da
abertura de cursos para mulheres do Liceu de artes e Ofícios, em 1881,
justificava-se a instrução feminina da seguinte forma: “para que a filha seja
obediente, a esposa fiel, a mulher exemplar cumpre desenvolver sua inteligência
pela instrução e formar seu espírito na educação”.
Posteriormente, a lei
de 1911, que criou as escolas profissionais, determinava que o ensino de artes
e ofícios fosse ministrado aos do sexo masculino, cabendo aos alunos do sexo
feminino o ensino de economia doméstica e prenda manuais. Desta maneira, as
mulheres educadas só tinham acesso às categorias profissionais “femininas”, que,
ademais, permaneciam à margem das necessidades do processo de industrialização.
Esposa casta e
monogâmica
A concepção dominante
sobre a sexualidade da mulher na primeira metade do século XX encontra um bom
exemplo em uma tese de Medicina na defendida em 1915. Esta tese, que valeu ao
autor o título de especialista em Ginecologia e Obstretícia, é, na verdade um
inventário dos preconceitos contra a mulher.
Maternidade sacralizada
A maternidade é
extremamente valorizada em toda a doutrina cristã, como bem definia Santo
Agostinho, para qual “a propagação dos filhos é a primeira, natural e legítima
finalidade das núpcias” e essas é uma das heranças culturais presentes nos dias
de hoje, influenciando comportamentos e políticas públicas.
“Ser Mãe”, no entanto,
é uma noção culturalmente construída, que envolve muito mais do que o simples
ato biológico da reprodução. Além dos sentimentos afetivos da mãe, a criança
vai depender das condições de amparo material e social que possibilitem o
próprio exercício da maternidade. O excesso de atribuições maternas termina
ofuscando a necessidade da presença do pai, muitas vezes pensando
exclusivamente no seu papel de provedor. Ao mesmo tempo, a idealização da
maternidade deixa na sombra a quantidade de trabalho e o dispêndio de energia
consumido no processo de criação e educação dos filhos.
Eliany Koehler de Ávila
Parabens Eliane pelo Blog, pois é mais um meio de informaçoes.
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